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Paisagem na Observação de Aves: Como o Birdwatching muda nossa visão de mundo

  • Foto do escritor: Pedro Ribeiro
    Pedro Ribeiro
  • há 12 horas
  • 5 min de leitura

Nos meus primeiros 23 anos de vida, eu mal contemplava, apenas imaginava outros cenários que pudessem ser melhores, outros lugares que gostaria de estar.


Vivia distante do espaço e do tempo.


Desapercebido das estações e de cada estágio particular do clima; e quem dirá então se havia alguma atenção às aves.


Talvez soubesse o nome de alguma espécie ou outra como:

pardal, canário-da-terra, urubu, joão-de-barro, tucano, tesourinha e alguém mais.

E acredite, eu sequer olhava para a casa delas.


mosaico de fotos com joão de barro canário da terra tucanuçu e urubu
joão-de-barro (Furnarius rufulus), tucanuçu (Ramphastos toco), urubu (Coragyps atratus), canário-da-terra (Sicalis flaveola) 📸Pedro Ribeiro


A Mudança de Valores no ato de Passarinhar


Me recordo de que a paisagem só tinha valor quando proporcionava um vasto horizonte, sob os morros mais altos e que pudessem me levar para longe.


Fotografia tirada do Pico Marinzinho para a Pedra Redonda, Itaguaré, e ao fundo, Serra Fina.
Trecho da travessia Marins X Itaguaré, Serra Mantiqueira — 2019 📸Pedro Ribeiro

Já a floresta? um tédio!

O brejo? um nojo!

O cerrado? que feio…


Era preciso que a terra fosse extravagante ao olhar para conquistar minha admiração.


Visão em primeira pessoa durante um dos trechos na travessia da Serra Fina próximo do pico mais alto da Serra Mantiqueira
Trecho da travessia Serra Fina, Serra Mantiqueira — 2019 📸Pedro Ribeiro

Paisagem do bairro Bom Jardim em  Cachoeira de Minas vista da estrada de terra principal para as florestas mais extensas do bairro
Estrada do Bom Jardim no bairro Bom Jardim em Cachoeira de Minas - MG — 2023 📸Pedro Ribeiro

Isso porque não nasci um amante da ornitologia, admirador da natureza, eu me tornei um.


Mesmo tendo crescido em um ecossistema tão rico em biodiversidade, referência em espécies migratórias e aos pés da Serra Mantiqueira — onde o cerrado e a mata atlântica se abraçam, entrelaçando seus rios, envolvendo suas raízes e mesclando seus tons.


Eu só começo a ter o sentimento de contemplação pelos lugares mais cotidianos, conforme descobria mais sobre a própria observação de aves.


E o mais curioso é que esta sensação deixou de ser apenas visual e a paisagem contemplativa passou a ser, também, sonora.




A transformação de como percebemos a paisagem ao se atentar as aves


Depois que passei a passarinhar, os lugares que frequentei nunca mais foram os mesmo — principalmente aqueles que desprezava, como parte do túmulo de meu passado.


Ambientes que eram desconsiderados — apesar do laço histórico e familiar — com os passarinhos em cena, começaram a obter minha atenção e desejo de presença.


Enquanto que antes da observação de aves, o horizonte tinha o seu valor conforme a qualidade de uma foto, após adotar este estilo de vida, a paisagem deixou de se limitar as belas fotografias e passou a se tornar um ente vivo.


Hoje a percebo de uma maneira que está além da perspectiva de boa foto. É sobre a biodiversidade que no espaço prevalece.


Afinal, seu território é também uma extensão de seu corpo.


A paisagem além da visão

Apenas por ouvir o canto de uma espécie, posso mudar completamente a ideia que tenho a respeito do lugar em que ouvi aquela vocalização.


Como acontece quando escuto um canário-do-campo ou um sabiá-do-banhado.

Associando o som a paisagem.



Isso mudou não só a maneira como eu olhava para o mundo, mas também a maneira que sentia o mundo. Pois passei a entender o ambiente, interpretar a natureza e ler suas particularidades do cenário. Da mesma maneira que faço ao abrir um livro.


Começo a compreender as histórias que aquele lugar tem a me contar. O cenário que antes carregava um perfil estático e pacato, agora é tão vivo, dinâmico, sonoro.


a Observação de Aves Proporciona uma nova maneira de Olhar a paisagem


O olhar, adquiriu grande interesse por pastos, praças, capoeiras e charcos.


A paisagem desde então, nunca mais foi a mesma. Se tornou outro conceito em minha vida.


Os bairros rurais próximo de casa, vieram a ser verdadeiros refúgios à minha mente.

Passei a admirar estes ambientes para além dos conceitos pré-estabelecidos que tinha respeito.


Até então, o cerrado, nunca foi tão lindo; o brejo, jamais foi tão interessante; a beira do rio, em tempo algum apresentou tamanho pulsar de vida. Lugares que sempre frequentei me presentearam com um sentimento de pertencimento.


Apesar de ter crescido na zona rural e ter passado meus primeiros 9 anos de vida mais isolado, nunca desenvolvi uma sensibilidade tão grande como a que adquiri no momento que passei a passarinhar — a reparar nas aves e me encantar com os cantos dos passarus.


Paisagem da garça-branca-grande caçando na beira de um lago em um habitat modificado pelo humano
garça-branca-grande (Ardea alba) — 2020📸Pedro Ribeiro

Passarinhar, uma inspiração poética

Esta mudança de perspectiva veio a tona após alguns anos de passarinhadas, quando tive o contato com certo poema que cristalizou este sentimento e marcou um capítulo nesta jornada que agora compartilho com você:


visita inesperada


Uma seriema* me visitou; nada disse,

nada comentou. Uma seriema, quem diria ...

não deixou seu nome nem o que queria.

Seriema em casa dá sorte: crendice?


Vi suas longas pernas; vi seu bico encurvado.

Segui seus passos pelas frestas de uma janela.

Todo o jardim era seu, toda paisagem era ela,

e que se foi assim como apareceu, sem deixar recado.


Aliás, sim, deixou em suas pegadas:

que a sorte vem, sim, às almas apaixonadas àquelas almas, puras.


Querida ave das pernas compridas,

que do alto de onde está, do alto de suas alturas,

faz renascer nossas vidas, às vezes, esquecidas


*Cariama cristata



Livro Pequenos Sons para uma vida grande de Mauricí Santos

Como se pode ver, na poesia podemos traduzir o que não se encontra num discurso lógico, racional ou científico.


Este poema me deixou tão intrigado que comecei a investigar o que pode representar aquilo que entendemos por paisagem junto experiência contemplativa.


Consequentemente, a maneira como vemos a terra.


Pois por uma breve interpretação da poesia, podemos entender que a seriema se estende ao jardim — todo jardim era seu.


Até porque quando a observamos, não necessariamente a destacamos de todo o resto, mas sim, observamos a seriema interagindo com ambiente.





E ainda nos deparamos com a própria ave dentro deste conceito de paisagem — toda paisagem era ela.





A observação de aves tem por efeito ressignificar conceitos e modos de vida


Observar aves é ressignificar o conceito de paisagem e construir um olhar diferente para onde vive, para suas recordações, os lugares em que passou e aqueles que deseja conhecer.


A atividade propõe uma alfabetização ecológica. Pois podemos finalmente ler o ambiente, e descobrir o que há nele, muitas vezes, só de prestar atenção na sua paisagem sonora.


Afinal, só no ato de escutar, as próprias espécies vão nos dizer o que há por ali.


A mudança ao observar aves, ocorre: nos olhos de quem vê, no ouvido de quem escuta, nos sentimentos de quem sente e no tempo de quem percebe.


A paisagem ganha novos contornos, se torna também sonora, olfativa, tátil e dinâmica. Nossos conceitos são ressignificados à medida que aprendemos de forma empírica, o que é um grande incentivo a expressão artística, e as vezes, junto de um pensamento científico.


A jornada iniciada ao observar aves, pode se dizer que vai além de um capítulo novo da vida, ela se torna o novo modo de vida.


Como se pudéssemos abrir um livro inteiro, do qual, pouco importa saber o número de páginas, já que não é o final aquilo que motiva, mas sim, cada estrofe deste infinito poema que faz nossa vida fluir com mais pertencimento, alegria e sensibilidade.


E se você quiser iniciar nesta jornada, assista a aula introdutória de nosso curso de Observação e Identificação de Aves, logo abaixo:


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