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Observação de Aves e o Legado da Etnoornitologia

  • Foto do escritor: Rita Sousa
    Rita Sousa
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

No cenário contemporâneo, a observação de aves (ou birdwatching) frequentemente se manifesta como uma coleção de fotografias e viagens. Para alguns observadores, a prática é condensada em "lifers e likes".

Colecionador de avistamentos
A disputa de "lifers" é representada no filme The Big Year (2011)

No entanto, essa abordagem competitiva ignora uma dimensão ancestral: a relação intrínseca entre ser humano, território e biodiversidade.


Ao observarmos o voo de um Gavião-carijó (Rupornis magnirostris) ou contemplarmos o canto de uma Corruíra (Troglodytes musculus), estamos diante de uma rede de significados ontológicos, como retrata a etnoornitologia, área que nos apresenta o modo de observação originário e empírico.


A etnoornitologia nos convida a baixar os binóculos e as câmeras por um momento, a silenciar os aplicativos e a despertar para uma transformação mediada pelo conhecimento popular e pela ave. Um nos ensina a lapidar os sentidos e o outro nos ajuda a interpretar o equilíbrio ecológico.


Neste artigo, vou apresentar a área da etnoornitologia como uma ferramenta de aprimoramento da observação de aves, pois os saberes indígenas somados aos científicos são poderosos e fundamentam a multiplicidade biocultural.


O que é Etnoornitologia?

A etnoornitologia é o ramo acadêmico que se dedica a descrever e analisar os conhecimentos, percepções e práticas que as populações locais mantêm com as aves. Resumidamente, é o estudo das relações entre humanos e aves a partir de um conhecimento empírico e popular.


Historicamente, as aves são os animais mais conhecidos e vocalmente presentes em nosso cotidiano. Neste exato momento, por exemplo, sou capaz de reconhecer a Andorinha-grande (Progne chalybea), a Andorinha-pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca), a Curicaca (Theristicus caudatus), o Pardal (Passer domesticus) e a Asa-branca (Patagioenas picazuro) vocalizando lá fora enquanto escrevo este texto. Tal acessibilidade as torna figuras centrais na construção de conhecimentos populares.


Como bem observam os pesquisadores Farias e Alves (2007), as pessoas conferem nomes às aves baseando-se em características morfológicas, comportamentais e sonoras. Entretanto, este campo de estudo vai além da nomenclatura e da taxonomia.


A etnoornitologia mergulha no conhecimento humano sobre o mundo natural e permite relativizar a visão da ornitologia clássica, reconhecendo que o saber não formal também possui rigor, profundidade e uma precisão adaptativa.

Juruviara no ramo da árvore em Santo Antônio do Pinhal
A Juruviara faz parte da família Vireonidae e seu canto anuncia o verão na Mantiqueira.

Entre diferentes nações, as aves são referenciadas para comunicar sentimentos, crenças e criar laços afetivos. Para o povo Mbuti, na República Democrática do Congo, as aves são mediadoras do mundo invisível. Para a Nação Potawatomi, a presença de um ninho de Vireonídeo é interpretada como uma mensagem da floresta (Ichikawa, 1998; Kimmerer, 2023).


Ao estudar estes artigos científicos e a obra da autora Robin Kimmerer, é possível perceber o vasto conhecimento sobre a diversidade que os povos indígenas detêm, mesmo sem o uso de equipamentos de alta precisão como câmeras, binóculos ou gravadores.


As populações indígenas observam as aves por meio de seus sentidos e aprendem a reconhecer espécies pelas trocas de conhecimento entre o povo e as observações in loco. Tanto que muitos nomes populares relacionam-se diretamente ao modo de vida das aves.


Em um estudo recente (2018), o pesquisador Fabio Dario entrevistou 22 indígenas Kayabi que reconhecem 165 espécies de aves em seus territórios. O autor conclui que eles apresentam um amplo conhecimento ecológico sobre essas aves e diferenciam as espécies com critérios pautados em taxonomia, bioacústica, etologia e guildas tróficas.


Os Kayabi não mencionaram termos técnicos como os que acabo de citar, mas conseguiram expressar os conhecimentos relacionados a essas áreas durante as entrevistas e também no acompanhamento em campo. O sistema de conhecimento que eles possuem é refinado e transmitido por gerações de observação empírica e de uma convivência íntima com a biodiversidade.


Outro aspecto que chama a atenção é que eles reconhecem as aves não apenas para buscar alimento. Eles enxergam as aves como professoras de convivência, e este é o princípio básico da conservação da natureza: o conviver com outras espécies.


Essa é uma das várias razões que nos incentivam a questionar o modelo de observação que visa apenas colecionar fotos e estimular competições sem compreender os impactos atrelados à atividade. Interpretamos isso como uma relação de uso, não de convivência.


Confesso também certa decepção quando algum colega de profissão desconsidera completamente o conhecimento ancestral e afirma que a observação de aves é, sim, colecionismo e que nasceu com os naturalistas. Caso você pense desta forma e deseje conhecer outras realidades, te convido a continuar a leitura.


A relação biocultural

Algumas crenças populares favorecem o estabelecimento e a manutenção de certas espécies de aves. Vale citar um fato curioso sobre o povo Sertanejo de Pernambuco, que acreditava que a Lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) fez um favor à Virgem Maria e, portanto, seria um sacrilégio matar a espécie. Diante da situação associada à abundância populacional da ave, o pesquisador Forbes (1881) denominou o caso de “imunidade cultural”.


Essa “imunidade” pode acontecer até quando a crença é negativa: o canto do Acauã ou Makawã (tupi-guarani) é interpretado como agouro por alguns povos indígenas, o que os faz se afastarem do local onde a ave esteja vocalizando.


Acauã registrado em São Bento do Sapucaí.
Acauã (Herpetotheres cachinnans) em São Bento do Sapucaí em abril de 2020.

Para outros povos, como os Kayabi, esses rapinantes representam uma parceria na caça, pois os indígenas imitam seu canto, por acreditarem que as serpentes morrem de medo quando ouvem o Makawã (Herpetotheres cachinnans), afinal, o Makawã se alimenta delas. Apesar de crenças opostas, o Acauã é respeitado nas duas situações: em uma pelo medo, na outra pela devoção.


Em sua pesquisa, Dario ressalta que o alto grau de observação permite aos indígenas Kayabi diferenciar espécies que são taxonomicamente muito próximas, baseando-se em detalhes que muitas vezes escapariam ao ornitólogo desprovido de equipamentos. Quem nunca precisou checar um Piolhinho (Phyllomyias fasciatus) no binóculo?


Entretanto, todos nós podemos lapidar nossos sentidos para sermos capazes de reconhecer as diferentes espécies de aves que estão à nossa volta, assim como fazem os Kayabi. Claro que isso não será da noite para o dia, até porque, nos últimos anos, com o avanço da tecnologia, nossa espécie tem se tornado ainda mais anestesiada.


São tantas informações na palma da mão que não damos tempo para aprimorar os sentidos. As pessoas querem respostas rápidas sobre a ave que está cantando, e para a maioria, a identificação fornecida por um aplicativo de celular já basta. Portanto, não há estímulo cognitivo, não há aprofundamento da visão e muito menos da audição.


Acredite, há quem caminhe com o celular ligado para no final da caminhada saber quantas espécies o aplicativo identificou, sem critério sobre o que deseja gravar e sem preocupação com a qualidade do áudio. Parece que ter é mais importante que escutar. Sempre me questiono, quem consegue ouvir uma gravação por 30 minutos repleta de ruídos que machucam a audição?


Lapidar os sentidos

Quer observar mais espécies? Quer aprender a observar aves sem, necessariamente, ficar o tempo todo com o celular como se ele fosse uma extensão do seu corpo? Você quer se dar um tempo para sentir a vida real?


Para começar, recorro aos poetas Manoel de Barros e Ana Estaregui:

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um Sabiá mas não pode medir seus encantos.” — Poema: Os Sabiás divinam

Nascemos sempre duas vezes, a primeira vez pelo chão, a segunda vez pelo pássaro” — Livro: Fazer círculos com mãos de ave

Se você já observa aves, tenho certeza de que foi por isso que começou: pelo encantamento que fez você renascer. Sem hierarquias, somente a poesia do encontro.


Rubem Alves, no livro Educação dos Sentidos, trata esse segundo nascimento como a aquisição de “olhos de poeta”. Para tanto, recomendo duas formas: a primeira é se expor às poesias, e a segunda é se expor às aves.


Pode ser o Canário-da-terra (Sicalis flaveola) no quintal. A partir dele, proponho um exercício para lapidar a visão. Repare que cada indivíduo tem tons diferentes, embora pertençam a mesma espécie, cada ser é único. Tenha atenção aos comportamentos, você vai perceber que alguns sentirão receio e logo buscarão abrigo na árvore mais próxima, enquanto outros poderão ficar curiosos com a sua presença e vão olhar diretamente em seus olhos. Aproveite essas observações mútuas.


Quando for possível, recomendo que você escreva o que sentiu, pois refletir é fundamental para que a experiência se assente e estimule processos cognitivos a partir de um encontro real, distante das telas.


Pode parecer simples, mas este treino instiga a sensibilidade, a mente e a visão. No celular, perdemos a complexidade do mundo em 3D, que apresenta camadas e profundidade. Talvez seja por isso que as pessoas tenham tanta dificuldade em perceber detalhes morfológicos em espécies semelhantes: o olhar está acostumado a uma tela, sempre à mesma distância focal.


Por isso, é preciso desconectar das tecnologias e começar a aprimorar seus sentidos. Mas, para te ajudar nessa transição prática, preparei um material especial. Convido você a assistir ao vídeo em que explico alguns princípios básicos da observação sem o uso de equipamentos de alta precisão.

Assista ao vídeo abaixo:


É possível observar aves sem equipamentos.

O refinamento dos sentidos, assim como as classificações indígenas e científicas, deixarei para um próximo texto (ou vídeo). Por ora, quero te dar um tempo para refletir sobre esse modo de observar aves.


________________

Nota sobre os nomes das aves: na ciência, escrevemos o nome do gênero começando com letra maiúscula e o epíteto específico com minúscula (como em Tangara sayaca), enquanto os nomes populares costumam ser grafados em minúsculo (sanhaço-cinzento).


Neste artigo, respeitei a norma científica para os nomes em latim, mas para os nomes populares também optei pela letra maiúscula. Sou adepta a forma de pensar da botânica Robin Kimmerer: ela explica que essa regra trivial de escrever os nomes de outros seres vivos com letra minúscula expressa os valores humanos de superioridade, onde uma marca comercial acaba tendo mais peso que uma espécie viva.


Assim, quebro propositalmente essa convenção para expressar, simbolicamente, meu respeito pelos indivíduos Corruíra, Canário-da-terra, Andorinha-grande e todas as outras espécies não humanas.


Referências bibliográficas

Alves, R. A educação dos sentidos: Conversas sobre a aprendizagem e a vida. Planeta do Brasil, 136p. 2018.


Barros, M. Poema Os Sabiás Divinam. Disponível em pensador.com. Consultado em agosto de 2026.


Dario, F.R. Conhecimento tradicional da avifauna pelos indígenas Kayabi, Amazônia Meridional, Brasil. Revista Geotemas, 08 (3): 140-160, outubro de 2018.


Estaregui, A. Fazer círculos com mãos de ave. Editora 34, 152 p. 2025. 


Farias, G.B e Alves, A.G.C. Aspectos históricos e conceituais da etnoornitologia. Revista Biotemas, 20 (1): 91-100, março de 2007.


Forbes, W.A. Eleven Weeks in North-eastern Brazil. International journal of avian science Ibis, 23(3): 312-362, julho de 1881. 


Ichikawa, M. The birds as indicators of the invisible world: ethno-ornithology of the Mbuti hunter-gatherers. African Study Monographs, 25 (Suppl.): 105-121, 1998.


Kimmerer, R.W. A maravilhosa trama das coisas: sabedoria indígena, conhecimento científico e os ensinamentos das plantas. Intrínseca, 410 p. 2023.







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